A Vida Sentimental de Milena, Débora, Victória …

Minha mãe tem um ditado que pretendo levar comigo por toda a minha vida: “Quando você estiver carente, esconda-se embaixo da cama!”. Esse ditado é fundamental para compreender o conto de hoje que, sinceramente, deveria ter como título A Vida Nada Sentimental de Lorenzo.

CAP 14. A Vida Sentimental de Milena, Débora, Victória…

Sabe tudo, baixinho, quase careca, fora de forma, com um sotaque horroroso (beirando ao falso) e metido a amante insaciável. Esse é Lorenzo, um italiano de quarenta e tantos beirando os cinquenta que se mudara para o Brasil há quase onze anos. No seu país ele não obtivera muito sucesso em sua carreira de pseudo escritor, por isso resolveu tentar a sorte em terras tropicais. Aqui ele conseguiu aperfeiçoar um dom que o possibilitou sobreviver e muito bem: a capacidade de identificar mulheres fragilizadas e com medo da solidão.

Ele não é nenhum Giancarlo Giannini nos seus tempos áureos. Também não é nenhum chefe de cozinha, artista revolucionário ou filósofo contemporâneo. Em poucas palavras, faltam atributos físicos, habilidades manuais ou intelecto. Porém, ele sabe cativar uma mulher em crise. Demonstra interesse como se ela fosse a mulher mais especial do mundo. Tem pronta uma seleção de músicas românticas. Chora com facilidade. Não tem medo de dizer eu te amo. Por fim gosta de erotizar com absolutamente tudo: – “Mooolllto sensuaaallleee vostro tatuaaaggiiiooo!”. Só de lembra ter presenciado Lorenzo tentar aplicar esse golpe barato em uma amiga, enjoa-me.

Fato é que nem todas as mulheres estão imunes ao seu veneno. Sua primeira escolhida foi Milena. Empresária estável financeiramente, porém solteira há bons três anos, 37 anos e com uma imensa vontade de ser mãe. Ela não demorou para cair de amores pelo italiano de meia tigela. Os dois casaram e tiveram um filho. Durante o período, Lorenzo foi um marido e pai exemplar. Mas, apenas pelo tempo suficiente para que ele, com o dinheiro da esposa, é claro, comprasse um carro luxuoso, ternos de alta costura e lançasse ao menos seis obras – todas fracassos de vendas, que, contudo, abriram portas nos meios culturais local e nacional. Quando terminou o relacionamento, ele jurou amizade incondicional, ou seja, ligaria sempre que precisasse de mais dinheiro.

A próxima foi Débora. Modelo de meia idade que, na sua juventude, havia gozado de imensa beleza e inúmeros admiradores. Mas, agora, ainda que não fosse totalmente verdade, sentia-se abandonada por ambos. Quando aquele homem chamou-a para jantar dizendo ser um grande fã, a mesma não conseguiu conter o entusiasmo. Logo, vieram mensagens trocadas e encontros cada vez mais frequentes. Em um mês e meio os dois já estavam morando juntos e em menos de um ano, mudando-se para outro país. Ele queria lançar internacionalmente um ensaio que havia feito sobre o feminino supostamente inspirado nela. Ela mergulhou de cabeça. Bancou a viagem, o aluguel da casa nova e todas as despesas com o livro – que aparentemente tinha mais potencial que os demais, mas ainda assim era medíocre. Quando seus planos falharam, ele alegou sentir-se sufocado pelo amor da musa, jurando eterna admiração por ela. Era hora de partir para outra conquista.

Era hora de Lorenzo “apaixonar-se” por Victória. Filha única de um empresário, a jovem problemática sofria com a ausência do pai. A mãe, por sua vez, havia abandonado-a quando Vic ainda era criança. Sem referências, ela foi uma presa fácil. Dedicado, Lorenzo a convenceu a voltar com ele para o Brasil sob o pretexto de que precisava conviver com o filho e de que o menino deveria conhecer a madrasta. Encantada com a possibilidade de ter uma família unida, ela largou os estudos, os amigos e o pai ausente. Sentiu-se acolhida e, sem pensar muito, partiu para uma nova fase da sua vida. Já no país, ele a induziu a comparar o que seria o lar da sua nova família: uma propriedade localizada nos arredores da cidade que foi registrada completamente no nome de Lorenzo. Ainda, fez-a investir na construção de pequenos bangalôs e um espaço cultural dentro do mesmo terreno. Dessa forma, ele, grande autor que era, poderia promover breves cursos de escrita criativa em contato com a natureza. Mal a obra chegou ao fim, ele revelou que o seu amor por ela também havia chego ao fim. Motivo: não suportava mais a diferença de idade e sentia como se estivesse sugando a juventude de Victória. Por fim, pediu que ela voltasse para o seu país e que retomasse a sua vida com a promessa de que os dois manteriam o contato e de que, quem sabe um dia, reatariam.

Desconheço o presente de Lorenzo, mas acredito que Milena, Débora e Victória não foram as únicas mulheres de sua vida. Penso que, enquanto viver, o italiano vai continuar usando a mesma fórmula: encontrar mulheres com algum tipo de carência e tirar o máximo de proveito possível. Quem sabe assim ele conseguirá a estabilidade necessária para lançar a tão sonhada obra-prima e, um dia, encontrará alguém que se aproveitará da sua carência?

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