Jean-Claude Ellena e os perfumes

“O odor é uma palavra, o perfume é a literatura.”

Assim inicia Diário de um perfumista. No livro, Jean-Claude Ellena descreve sua busca constante por essências e revela detalhes da indústria. Talvez nós já tenhamos nos dado conta de alguns dos fatos trazidos à tona pelo renomado pigmentário dos dias atuais, mas ler um depoimento tão honestos é chocante. É sabido que propagandas podem vir a exercer forte influencia sobre o consumidor, contudo, perceber claramente que você pode ter feito uma escolha sem base nas suas preferências, deixa perplexo. Mais do que uma mistura de óleos essenciais, álcool e água, os perfumes são conceitos. Em outras palavras, as fragrâncias comercializadas são igualmente compostas por um emaranhado de artifícios (frases, notas musicais e imagens) apropriados a fim de cativar o consumidor. Isso acontece, segundo Ellena, porque, em um mundo tão rápido quanto o que vivemos, uma fragrância é avaliada em segundos.Porém, é preciso tempo para que alguém conheça-la. “Acredito que os perfumes são signos, que o apreciador dos perfumes interpreta à medida que o perfume atua sobre ele ou sobre a fota olfativa – uma fita de papel poroso – a ser cheirada. Ele o aspira, o segue, o abandona, volta a ele; não sei quem – entre o perfume e o seu apreciador – precisa mais do outro.” – afirma o profissional e estudioso. É necessário se familiarizar com as notas para então se apropriar ou rejeitar.  Além disso, cada um deveria ser capaz de escolher as suas próprias fragrâncias. Feminino e Masculino são rótulos limitadores. A lavanda, por exemplo, é considerada fundamental para a confecção de perfumes masculinos na Europa, enquanto, na América Latina, ela é usada em composições dedicadas ao público feminino. Por fim, mas, sem dúvida, não a última ideia levantada por Jean-Claude Ellena, o nariz de um perfumista deve estar sempre atento a cada odor e a cada memória. Uma ida à uma feira de hortifrúti não é nada simples. Pelo contrário, se o cheiro das peras predomina, é preciso sentir de perto e tomar nota do que se está sentindo, dos materiais envolvidos, das impressões… Tudo pode contribuir para o surgimento de uma nova fórmula, a qual não necessariamente terá peras em seu todo, mas que será um retrato olfativo referente à imagem do odor fixada na memória, parafraseando o autor. Dessa forma, Diário de um perfumista revela o quão complexo pode ser a criação de um novo perfume, ao mesmo tempo em que desafia o leitor a fugir do condicionamento do olhar o qual lhe foi imposto pela industria.

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