A Vida Sentimental de Diana e Maria da Rosa

Dando continuidade a série “A Vida Sentimental da Mulher Contemporânea”, segue abaixo um conto escrito por Diana da Maia Rodrigues.

CAP2. A Vida Sentimental de Diana e Maria da Rosa

Maria da Rosa era o nome da mãe do meu falecido avô materno. Sei muito pouco sobre ela, mas o que sei deixou um vazio. Tudo começou em 22 de junho de 2008. O telefone tocou. Era domingo à tarde. Todos estavam em casa, então todos estranhamos o telefone tocar. Um dos meus tios havia morrido de repente.

Dois dias depois, estávamos todos sentados no chão separando documentos. Meu tio que havia falecido detinha a tutela de um dos seus irmãos o qual sofre de transtornos psiquiátricos. A transferência da guarda não era só necessária, como urgente. Foi então que, em meios a pilhas de papel, encontrei a certidão de nascimento do meu avô.  Notei dois fatos no mínimo curiosos. Primeiro, o pai do meu avô materno era desconhecido. Segundo, o sobrenome da minha bisavó não era o mesmo que o do meu avô. Enquanto ela se chamava Maria da Rosa, ele se chamava Carlos Eduardo da Maia. Isso mesmo, sem o da Rosa no final.

Comecei a indagar a minha mãe, que rapidamente desviou o assunto. Mesmo assim, não desisti e perguntei mais uma vez: – Mãe, o vô não tinha pai?. Ela cedeu e respondeu não. Aos poucos, ela foi perdendo a vergonha e começou a contar o que sabia sobre Maria da Rosa. Ela era analfabeta, mas uma mulher elegante. Sabia se portar à mesa e estava sempre muito bem vestida. Ninguém sabia qual era a sua profissão – faxineira, costureira, cozinheira… – e sua origem também era um mistério. O que todos sabiam era que ela nunca se casou, mas teve cinco filhos. Cada um dos filhos possuía um sobrenome diferente.

Naquela noite, fui dormir com um aperto no peito. Por um momento, eu havia perdido minhas referências. Meu sobrenome era falso. Se antes eu não sabia nada sobre aqueles que vieram antes de mim, sobre o passado da minha família, agora eu tinha certeza de que nunca iria saber. Eu me senti enganada. Eu me senti uma farsa.

Ao mesmo tempo, não conseguia parar de rir. Maria da Rosa devia ter sido uma mulher admirável. Uma mulher a frente do seu tempo. Mesmo sem estudos, ela manteve cinco filhos. Mesmo sem tem se casado, ela deu um sobrenome a altura de cada um deles. Teria ela um amante o qual nunca pode revelar a identidade e por isso os diversos sobrenomes? Teria ela diversos casos amorosos? Teria ela sido uma meretriz?  Teria ela se encantado com os Maias de Eça de Queiros? Quem teria sido o meu bisavô? Não importa. Nenhuma resposta vai mudar a minha essência. Eu sou o que sou. Eu sou quem eu sou.


“[…] O que significa um nome? Aquilo a que chamamos de rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo doce perfume. […]”

(William Shakespeare, Romeu e Julieta, Segundo Ato, Cena II, Julieta)

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