Para aonde caminha a crítica?

Hoje, tirei o dia para arrumar alguns links que estavam quebrados aqui no blog. No entanto, para não deixar o Aleatório sem atualização, aqui vai uma reportagem sobre crítica que escrevi há algum tempo – mas que continua atual – para o Jornal da Universidade:

Para aonde caminha a crítica?

Textos críticos perdem espaço nos meios de comunicação
e também na academia

Considerada por muitos intelectuais um meio fundamental para a construção de conhecimento, a crítica, em todas as suas dimensões, vem perdendo terreno na grande mídia. Por sua vez, o espaço acadêmico destinado à atividade é motivo de divergência entre os críticos. Em meio a isso, o Jornal da Universidade conversou com uma série de estudiosos do assunto para compreender melhor o que se pode considerar crítica e qual o seu futuro no Brasil.

Para Arthur Nestrovski, doutor em literatura e música pela Universidade de Iowa (EUA), o que, freqüentemente, é considerado um texto crítico não passa, muitas vezes, de uma opinião. Mas o que diferencia o juízo crítico de uma simples idéia? Nas palavras de Nestrovski, também músico e articulista da Folha de S.Paulo, “a opinião é subjetiva. A crítica precisa exercer um trabalho analítico sobre a obra. Antes de fazer uma interpretação, tem que ser capaz de descrever em termos da própria linguagem que está sendo posta em jogo. Dizer se foi bom ou ruim não é crítica”. Segundo o pianista, colunista e professor do Departamento de Música do Instituto de Artes da UFRGS, Celso Giannetti Loureiro Chaves, cabe ao crítico “enfocar analiticamente algum fenômeno cultural, sem paternalismo ou proselitismo”.

As visões sobre o assunto são variadas. Há quem diga que esse gênero jornalístico não sirva para nada, uma vez que a atenção do público estaria muito mais voltada para os esforços publicitários do que para a “opinião de um chato, um esnobe”, argumenta Nestrovski. Outros acreditam que a crítica exista como um meio generalizante de opiniões ou um espaço comprado por grandes teatros, editoras e gravadoras para a glória e ruína de novos talentos. De acordo com a renomada crítica teatral Barbara Heliodora, “idealmente, a crítica presta o serviço de levar o público um pouco além do ‘gostei’ ou ‘não gostei’, aprimorando seu próprio horizonte cultural.” Conforme Nestrovski, a crítica nasce da estranheza do novo e existe para desintoxicar nossos hábitos de percepção. “Em outras palavras, o ato de ler uma crítica nos ajuda a perceber uma obra a partir de aspectos inimagináveis, desenvolvendo nossa capacidade perceptiva.” Neste sentido, crítica e cultura andam juntas. Porém, Celso Loureiro Chaves lembra que, muitas vezes, o que contribui para a construção de uma imagem negativa da crítica é a maneira como esta chega ao púbico. “Se a crítica, por sua pontualidade, acaba segregada nos cadernos culturais, quando estes existem, ela é acusada de elitista. Ao mesmo tempo, quando feita num espaço mais geral, assume um caráter mais opiniático, menos informativo. E essas situações enfraquecem seu prestígio.”

Perda de espaço — Colunas cada vez mais limitadas na mídia impressa. Essa é a situação na qual se encontra a crítica hoje, seja ela teatral, cinematográfica, de artes, musical etc. Mas, se é tão importante para o desenvolvimento intelectual, por que esse espaço beira o fim? Os altos preços do papel jornal e o contingente reduzido de leitores são possíveis respostas para a questão. No entanto, para Paulo Gomes, doutor em Artes Plásticas e curador do acervo do Instituto de Artes da UFRGS, a situação é mais complexa. O pesquisador acredita que “não há uma relação da crítica com a grande mídia devido à ausência de interesse por discursos esclarecedores. A grande mídia quer novidades, fatos que são notícia. Assim sendo, torna-se difícil uma relação entre um lado, que deseja um diálogo profundo e revelador, e outro, que quer superficialidade e ligeireza”. Já a jornalista, doutora em Cinema e presidente da Associação de Críticos de Cinema do RS, Ivonete Pinto, vê o fenômeno como natural, afirmando que “esta é uma tendência não só no Brasil: cada vez mais, jornais dão menos espaço à reflexão. Não fico lamentando. Acho que, em compensação, muitos são os espaços que surgem para provocar a reflexão. É preciso apenas que, tanto quem escreve quanto quem lê, procure ou os invente”.

Universo acadêmico — Arthur Nestrovski, que esteve na UFRGS participando da edição de junho do projeto Unidéia, questiona: “Por que não se desenvolve mais crítica na universidade? Aqui mesmo, por que todos os espetáculos que estão em cartaz nos espaços culturais não são resenhados pelos alunos? O que custa colocar isso nos próprios veículos de comunicação da Universidade?” A resposta para esta pergunta não é simples, pois existem diferentes pontos de vista. Ivonete Pinto acha que o meio acadêmico poderia suprir a deficiência deixada pela mídia. “O problema é que a universidade está muito voltada para si. A produção intelectual não circula. E tem a questão da linguagem fechada que teima em existir. Ser profundo não significa falar por códigos.” Concordando em parte com a opinião da jornalista, Barbara Heliodora diz que “são poucas as publicações acadêmicas sobre as artes, mas algumas começam a aparecer. O espaço para a crítica ensaística é muito bom. Os departamentos de teoria teatral estão começando a produzir esse tipo de material”. Já na visão de Celso Loureiro Chaves, “há potencialidade crítica no círculo acadêmico, mas os meios ainda são poucos para aproveitá-la e veiculá-la”. Por fim, Paulo Gomes entende que “a universidade pública ainda é um refúgio para o crescimento da produção crítica, porque há tempo para pensar e para o diálogo”.

Reportagem publicada originalmente na edição de agosto de 2008 do Jornal da Universidade

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