Gilmar Rodrigues

Pra mim, entrevista tem que ser como uma conversa na qual nem o entrevistado nem o entrevistador fiquem constrangidos. Quanto mais natural, melhor. Sem pretensões. Pelo menos foi essa a minha intenção quando resolvi entrevistar um jornalista de cujo trabalho gosto bastante.

Gilmar Rodrigues tem 49 anos e, só de jornalismo, 26. Gaúcho, ele já trabalhou em inúmeros veículos de comunicação. Foi cronista semanal do jornal Vale dos Sinos. Em Porto Alegre, editou a revista Cobra (dedicado a reportagens de humor) e o jornal cultural Multiarte. Lançou junto com Adão Iturrusgarai a revista de quadrinhos e reportagens Dundum, além de trabalhar com publicidade, assessoria de imprensa e até no Pasquim Sul. Escreveu crônicas e reportagens para as publicações Outra Coisa e Pasquim 21. Roteirizou e dirigiu para rádio (O Mundo Animal – radionovela da Transamérica), TV (Rede Globo, onde trabalha atualmente) e cinema (os curtas de animação “A Marca do Zéfiro” e “Fuga em Ré Maior para Kraunus e Pletskaya”). E, como se fosse pouco, em 2009 Gilmar Rodrigues lançou o livro-reportagem “Loucas de Amor, mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais”, que em 2010 recebeu uma adaptação para HQ.

Quando fiquei sabendo que Gilmar Rodrigues vinha a Porto Alegre para participar do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos, que aconteceu entre os dias 28 e 30 de outubro de 2010, liguei para o Instituto Goethe, que estava organizando o evento, para tentar marcar uma entrevista. Só que Rodrigues acabou não podendo vir. Ele estava trabalhando na Palestina. Mas, eu não desisti. Trocamos e-mails e depois de algum tempo conseguimos conciliar as agendas para uma entrevista sobre o início da sua carreira, o jornalismo em geral, o trabalho na Palestina, o livro e os novos projetos via MSN.

Paula diz: Oi!

Gilmar diz: Oi, Paula! Podemos fazer agora a entrevista?

Paula diz: Sim.

Gilmar diz: É para a TVE ou você colabora com outra mídia?

Paula diz: É para o meu blog.

Gilmar diz: Entendi. Então, manda aí.

Paula diz: Quando você decidiu que queria ser jornalista?

Gilmar diz: Primeiro eu decidi que queria ser escritor, logo que eu aprendi a ler. Mais tarde, vi que o jornalismo era a faculdade que mais se aproximaria de uma faculdade de letras, de aprender a escrever.

Paula diz: Quando você fala em aprender a ler, você fala em aprender literalmente ou em aprender a gostar de ler?

Gilmar diz: Não literalmente. E, antes de aprender, eu já lia, pedia pra minha mãe ler todos os cartazes de rua e os anúncios no bonde, em Porto Alegre. Eu ficava encantado com o visual dos anúncios e, é claro, as letras. Então, já aprendi a ler porque gostava de ler, primeiro através dos olhos da minha mãe.

Paula diz: Por que você não optou pela faculdade de letras direto?

Gilmar diz: Letras me parecia muito teórico. Pode ser um preconceito da época ou mesmo uma ignorância sobre a faculdade. Além disso, eu gosto também gosto de contar histórias reais, isso é o jornalismo, pelo menos a impressão que eu tinha na época. Mas também gosto de ficção. Na verdade, as duas coisas: jornalismo-realidade, roteiro-ficção e também as duas coisas juntas.

Paula diz: Jornalismo pode ser ficção sem ser mentiroso?

Gilmar diz: Jornalismo é diferente de ficção. Seria mentiroso inventar coisas. E eu não acredito nessa história de que não existe verdade, que tudo é versão. Eu busco rigorosamente fatos, mas o que o jornalismo pode ter um pouco de ficção na forma de narrar, na subjetividade, no mergulho no ser humano, no olhar próximo aos fatos e as pessoas envolvidas. O jornalismo corriqueiro do jornal diário fica na base do fulano disse isso, o beltrano disse aquilo e o jornalista não se compromete. Eu gosto de me comprometer, de bancar que aquilo é fato.

Paula diz: Recentemente, eu entrevistei o Arthur Veríssimo e ele falou sobre seu primeiro livro (Karma Pop) e sobre conhecer novas culturas se desprendendo dos preconceitos. Isso é possível? É possível tentar contar uma história deixando de lado a sua própria bagagem cultural?

Gilmar diz: Acho que não é possível deixar de lado sua bagagem cultural. Você pode aproveitar isso no que ela tem de positivo, mas eu concordo com ele. Acho que não é necessário você esquecer a sua formação cultural, o lugar em que foi criado, pra não ter preconceito. Eu acabo de voltar da Palestina e vi por lá coisas que eu achava que eram diferentes, mesmo eu tendo lido muito sobre esse assunto, lido muito sobre o Oriente Médio. Vou te dar um exemplo, ok?

Paula diz: Sim.

Gilmar diz: Eu sabia que as mulheres lá não são aquilo que falam aqui (andam atrás do marido, são totalmente submissas, apedrejadas, essas coisas), mas logo notei um fato interessante: lá as mulheres não trabalham em serviços braçais. Elas só trabalham em uma posição pelo menos um degrau acima, de secretárias a gerentes porque eles acham que mulher trabalhando como faxineira, por exemplo, é um desrespeito. Mas, algumas pessoas da equipe, mais cheia de preconceitos, não conseguiram enxergar isso. Se você não se descola dos preconceitos, ainda mais observando outra cultura, você simplesmente não consegue enxergar nada do que contrarie esses preconceitos e estereótipos. E olha que na Palestina eu vi mulheres trabalhando em uma federação de futebol, várias mulheres, e futebol que é “coisa de homem”.

Paula diz: O que você foi fazer na Palestina exatamente?

Gilmar diz: Filmamos um documentário sobre futebol e montamos um projeto social para Copa do Mundo no Brasil em 2014.

[Como, em 2014, é a vez do Brasil vai sediar a Copa do Mundo de Futebol, Gilmar Rodrigues junto com Marcelo Cunha de Souza e a Palmares Produções resolveram fazer um documentário sobre uma seleção sem tradição no espore: a palestina. Eles pretendem mostra as dificuldades impostas aos jogadores pelos problemas políticos relacionados ao conflito no Oriente Médio, que impedem, por exemplo, que os atletas treinem e viajem e o que significa para essa população participar de um mundial como esse tendo em vista que desde 1998 a nação é reconhecida como país pela Fifa, mas não pela ONU.]

Paula diz: voltando um pouco no assunto, você lembra como foi a sua primeira reportagem?

Gilmar diz: Hum… Um minuto pra lembrar… Não sei se foi a primeira, mas fiz uma entrevista com um juiz de Sapucaia do Sul que tinha colocado uns traficantes na cadeia e ficou célebre por isso, tipo sinônimo de justiceiro (no bom sentido). Mas lembro de uma mais interessante, ficou bem engraçada, sobre funerárias e a morte (outro assunto que me interessa bastante). Acho que as das funerárias posso considerar a primeira. Vamos dizer que é a que eu lembro com mais carinho. Mas, antes disso, escrevia crônicas para o Jornal Vale dos Sinos.

Paula diz: quando você começou no jornalismo, você trouxe um pouco desse seu lado cronista?

Gilmar diz: Sim, trouxe um pouco dessa observação que a crônica permite, você pode notar isso no “Loucas de Amor”. Mas, acho que consegui isso (essa observação mais pessoal, mais subjetiva) porque nunca trabalhei num jornal diário.

Paula diz: E a maneira como você abordava as pessoas no início da sua carreira e a maneira como conduz uma reportagem hoje mudou em algum aspecto? Pergunto isso porque o que mais me chamou a atenção no “Loucas” foram as entrevistas com os presidiários e imagino que, mesmo com muitos anos de experiência, isso não deve ter sido fácil.

Gilmar diz: Continua sendo sempre um problema pra mim abordar pessoas desde o início. Fotografar ou retratar pessoas é sempre uma invasão, não deixa de ter um lado egoísta, sendo ficcionista ou jornalista você está sempre se aproveitando de histórias alheias, mesmo que em uma perspectiva bem pessoal. Quanto a abordar os presos… Não foi tão difícil, porque a maioria quer falar. Eles acham que é uma oportunidade de serem ouvidos, de contar suas histórias, de se defenderem. Uns ficam até convocando os outros para falar. E, uma vez que eles concordam em dar entrevistas, eles mesmos garantem a tua segurança, não são os carcereiros.

 

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2 comentários sobre “Gilmar Rodrigues

  1. Olá, Paula. Você possui algum contato do Gilmar? Também queria entrevista-lo para um trabalho da faculdade…desde já, obrigada!

  2. Paula, você teria algum contato do Gilmar Rodrigues? Estou atrás do seu livro “Loucas de Amor” e está esgotado em todos os lugares. A editora também não possui mais site. Talvez ele possa me ajudar a encontrar algum exemplar. Obrigada.

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