Para aonde caminha a crítica?

Hoje, tirei o dia para arrumar alguns links que estavam quebrados aqui no blog. No entanto, para não deixar o Aleatório sem atualização, aqui vai uma reportagem sobre crítica que escrevi há algum tempo – mas que continua atual – para o Jornal da Universidade:

Para aonde caminha a crítica?

Textos críticos perdem espaço nos meios de comunicação
e também na academia

Foto: Flávio Dutra / Projeto Contato

Considerada por muitos intelectuais um meio fundamental para a construção de conhecimento, a crítica, em todas as suas dimensões, vem perdendo terreno na grande mídia. Por sua vez, o espaço acadêmico destinado à atividade é motivo de divergência entre os críticos. Em meio a isso, o Jornal da Universidade conversou com uma série de estudiosos do assunto para compreender melhor o que se pode considerar crítica e qual o seu futuro no Brasil.

Para Arthur Nestrovski, doutor em literatura e música pela Universidade de Iowa (EUA), o que, freqüentemente, é considerado um texto crítico não passa, muitas vezes, de uma opinião. Mas o que diferencia o juízo crítico de uma simples idéia? Nas palavras de Nestrovski, também músico e articulista da Folha de S.Paulo, “a opinião é subjetiva. A crítica precisa exercer um trabalho analítico sobre a obra. Antes de fazer uma interpretação, tem que ser capaz de descrever em termos da própria linguagem que está sendo posta em jogo. Dizer se foi bom ou ruim não é crítica”. Segundo o pianista, colunista e professor do Departamento de Música do Instituto de Artes da UFRGS, Celso Giannetti Loureiro Chaves, cabe ao crítico “enfocar analiticamente algum fenômeno cultural, sem paternalismo ou proselitismo”.

As visões sobre o assunto são variadas. Há quem diga que esse gênero jornalístico não sirva para nada, uma vez que a atenção do público estaria muito mais voltada para os esforços publicitários do que para a “opinião de um chato, um esnobe”, argumenta Nestrovski. Outros acreditam que a crítica exista como um meio generalizante de opiniões ou um espaço comprado por grandes teatros, editoras e gravadoras para a glória e ruína de novos talentos. De acordo com a renomada crítica teatral Barbara Heliodora, “idealmente, a crítica presta o serviço de levar o público um pouco além do ‘gostei’ ou ‘não gostei’, aprimorando seu próprio horizonte cultural.” Conforme Nestrovski, a crítica nasce da estranheza do novo e existe para desintoxicar nossos hábitos de percepção. “Em outras palavras, o ato de ler uma crítica nos ajuda a perceber uma obra a partir de aspectos inimagináveis, desenvolvendo nossa capacidade perceptiva.” Neste sentido, crítica e cultura andam juntas. Porém, Celso Loureiro Chaves lembra que, muitas vezes, o que contribui para a construção de uma imagem negativa da crítica é a maneira como esta chega ao púbico. “Se a crítica, por sua pontualidade, acaba segregada nos cadernos culturais, quando estes existem, ela é acusada de elitista. Ao mesmo tempo, quando feita num espaço mais geral, assume um caráter mais opiniático, menos informativo. E essas situações enfraquecem seu prestígio.”

Perda de espaço — Colunas cada vez mais limitadas na mídia impressa. Essa é a situação na qual se encontra a crítica hoje, seja ela teatral, cinematográfica, de artes, musical etc. Mas, se é tão importante para o desenvolvimento intelectual, por que esse espaço beira o fim? Os altos preços do papel jornal e o contingente reduzido de leitores são possíveis respostas para a questão. No entanto, para Paulo Gomes, doutor em Artes Plásticas e curador do acervo do Instituto de Artes da UFRGS, a situação é mais complexa. O pesquisador acredita que “não há uma relação da crítica com a grande mídia devido à ausência de interesse por discursos esclarecedores. A grande mídia quer novidades, fatos que são notícia. Assim sendo, torna-se difícil uma relação entre um lado, que deseja um diálogo profundo e revelador, e outro, que quer superficialidade e ligeireza”. Já a jornalista, doutora em Cinema e presidente da Associação de Críticos de Cinema do RS, Ivonete Pinto, vê o fenômeno como natural, afirmando que “esta é uma tendência não só no Brasil: cada vez mais, jornais dão menos espaço à reflexão. Não fico lamentando. Acho que, em compensação, muitos são os espaços que surgem para provocar a reflexão. É preciso apenas que, tanto quem escreve quanto quem lê, procure ou os invente”.

Universo acadêmico — Arthur Nestrovski, que esteve na UFRGS participando da edição de junho do projeto Unidéia, questiona: “Por que não se desenvolve mais crítica na universidade? Aqui mesmo, por que todos os espetáculos que estão em cartaz nos espaços culturais não são resenhados pelos alunos? O que custa colocar isso nos próprios veículos de comunicação da Universidade?” A resposta para esta pergunta não é simples, pois existem diferentes pontos de vista. Ivonete Pinto acha que o meio acadêmico poderia suprir a deficiência deixada pela mídia. “O problema é que a universidade está muito voltada para si. A produção intelectual não circula. E tem a questão da linguagem fechada que teima em existir. Ser profundo não significa falar por códigos.” Concordando em parte com a opinião da jornalista, Barbara Heliodora diz que “são poucas as publicações acadêmicas sobre as artes, mas algumas começam a aparecer. O espaço para a crítica ensaística é muito bom. Os departamentos de teoria teatral estão começando a produzir esse tipo de material”. Já na visão de Celso Loureiro Chaves, “há potencialidade crítica no círculo acadêmico, mas os meios ainda são poucos para aproveitá-la e veiculá-la”. Por fim, Paulo Gomes entende que “a universidade pública ainda é um refúgio para o crescimento da produção crítica, porque há tempo para pensar e para o diálogo”.

Reportagem publicada originalmente na edição de agosto de 2008 do Jornal da Universidade

HIPOCRISIAS DO GÊNERO

O post de hoje é uma reprodução de um conto muito bem escrito pelo amigo Rodrigo Wolfenbüttel. Ele mantém o blog WOLFFOWSKI, que abastece com um conteúdo autêntico. Vale a pena passar por lá e conferir! Então, sem mais delongas, senhoras e senhores:

HIPOCRISIAS DO GÊNERO

Toda tensão se dissipara em menos de um segundo, porém ao invés de um reconfortável relaxamento dos músculos e da alma, como de costume, o terrível peso da culpa assomou-se sobre seus ombros. Um silêncio constrangedor imperou no momento seguinte. Invejou profundamente todos os fumantes, capazes de contornar de forma natural aquela embaraçosa situação com um simples movimento das mãos e um acender de cigarro.

Contudo não possuía a mesma sorte, largara o tabaco há muitos anos e estava fadado a encarar sua companhia sem a presença do cigarro. Fora ela quem quebrara o silêncio que já se estendia longamente para além do constrangimento. “Tudo bem com você?” Era óbvio que não estava tudo bem com ele, além da ausência da fala estava inquieto e nervoso. Nitidamente perturbado.

Sua voz saiu tremida, as palavras pareciam trancadas na garganta. Quase gaguejando respondeu: “Sim, estava apenas pensando.” Mas como era perturbadora aquela situação. E pensar que minutos atrás estavam no mais elevado nível de intimidade, e em grande sintonia também. Todavia agora agiam como completos desconhecidos que foram recentemente apresentados em um contexto desfavorável.

Uma imensa parcela da responsabilidade por este impasse era sua. Era nele que residia toda culpa e remorso que se espalhavam pelo ar congelando o espaço existente entre os dois. Resmungou algumas palavras incompreensíveis antes de levantar e buscar uma cerveja na geladeira. Ela, tomada por aquela atmosfera fria e coberta pelo lençol o máximo possível, perguntou-lhe se queria ir embora. Sim, algo gritava dentro dele. Pegue suas roupas e fuja para rua. Mas sabia que aquilo apenas agravaria sua culpa.

Voltou a sentar na borda da cama, deu mais um gole em sua bebida e começou a falar. Divagou sobre os mais variados assuntos enquanto ela silenciosamente ouvia com atenção e assentia com indiferença. Ela deixou que ele falasse tudo o que queria, pois percebera uma gradativa redução em seu nervosismo enquanto falava. Após alguns minutos de intenso falatório estava tranqüilo novamente, e mais que isso, ela voltara a sentir atração por ele.

Ela permitiu que discorresse ainda mais em seu monólogo, quando percebeu uma pausa mais longa avançou sensualmente sobre seu corpo. Todas suas justificativas e barreiras morais, habilmente levantadas na última meia hora, ruíram com aquele avanço repentino. Inevitavelmente conviveria com a culpa, e ela, com o prazer.

Por quê a nudez icomoda?

O Homem Nu, filme de Hugo Carvana baseado em crônica de Fernando Sabino.

Quando eu era criança e gritava “Mãe, vou tomar banho”, minha irmã do meio, a Carlinha, saia correndo de onde quer que ela estivesse só para cantar: “Pelado, pelado. Nu com a mão no bolso.” – trecho da música “Pelado” do grande Ultraje a Rigor. Toda vez em que me lembro disso, rio sozinha e nós duas também rimos muito disso até hoje, porque, principalmente, toda a vez em que ela fazia isso, eu ficava muito irritada.

O que me incomodava na época, não era a nudez em si, mas a gozação – coisa de irmã pentelha, sabe? Na minha casa, nunca foi cultivado o habito de se andar “peladão” de um lado para o outro, mas a nudez também nunca foi vista ou tratada como algo pecaminoso.  Se alguém estivesse com pressa, nem perdia tempo fechando a janela do quarto para trocar de roupa.  Mas parece que ver alguém pelado, mesmo que essa pessoa não esteja fazendo sexo ou se insinuando sexualmente, constrange um número significativo de seres humanos.

Na última segunda-feira, dia 26/03, li no Yahoo a respeito de um grupo de jovens estudantes do curso de Licenciatura de Artes Plásticas da Universidade Federal do Amazonas que foram “repreendidos” pelos demais alunos da instituição por demonstrarem o princípio da monotipia usando como instrumentos os seus corpos despidos. O ato causou tanto estranhamento que virou notícia. Sobre a cena presenciada, o aluno do 4° período de Língua e Literatura Francesa Bruno Davila afirmou ao portal que “As pessoas não estão acostumadas com esse tipo de coisa. Apoio quase todas as manifestações de arte na Universidade, mas essa foi meio tensa.”. Em “resposta”, o idealizador da mostra, Fabiano Barros, disse que “Ninguém esperava um trabalho tão audacioso, porque 99% das pessoas têm medo ou repulsa ao nu, à beleza natural”.

Alunos do curso de Licenciatura de Artes Plásticas da Ufam demonstram princípio da monotipia nus. Fotos: Divulgação/ Betilsa Rocha

Ao ler tais afirmações, perguntei para mim mesma: existe algo mais intrínseco ao ser humano do que a nudez? Quando nascemos, estamos nus. Quando queremos tirar a sujeira de nossos corpos, ficamos nus. Quando amamos, também ficamos nus (de corpo e de mente). E, quando morrermos, provavelmente, alguém irá nos despir para analisar a causa de nossa morte e outra pessoa irá nos despir novamente para nos lavar e depois nos vestir para que nossas famílias e amigos possam se despedir de nós.

Se a nudez é algo tão natural, por quê ela choca/incomoda tanto? A nudez,  assim como as vestimentas, é uma  mera convenção cultural. Em outras palavras, um homem só se veste de uma determinada forma porque, no grupo ao qual ele pertence, combinou-se ou foi imposto que ele deveria usar aquelas roupas. Para entendermos melhor, podemos nos remeter ao que o pais da linguística moderna, Ferdinand de Saussure, afirmou com relação aos signos. Para o estudioso suíço, todo signo é composto por um significante (o som da palavra) e por um significado (o conceito atribuído por um determinado grupo de pessoas  àquela palavra), que, por sua vez, são unidos de maneira arbitrária. Isso significa que não existe uma razão lógica para que chamemos de livro um objeto que exerce a mesma função do que conhecemos como livro. Nós chamamos o livro de livro porque foi convencionando pela sociedade em que vivemos. Se vivêssemos nos Estados Unidos, por exemplo, chamaríamos livro de book.

Logo, em minha opinião, a nudez em si não constrange, o que faz dela algo constrangedor, e até assustador, são as convenções arcaicas que  impõem que as pessoas percebam e lidem com o nu de uma maneira negativa.

Lance Armstrong pela lentes de Annie Leibovitz (1999)

Novo post!

Entre amanhã e sexta, novo post: sobre nudez! Por enquanto, uma prévia: “Study of a Male Nude with Arms Outstretched”, desenho do artista estadunidense Ufer Walter (1876-1936).

Mafalda

O bom filho à casa torna. Sim, o Aleatório voltará a ser atualizado! Depois de alguns meses em um limbo mecânico, voltei a ser um ser pensante – assim espero – e, em comemoração a essa nova fase da lua, aqui esta como prometi há muito tempo: uma tirinha da queridíssima Mafalda de Quino por semana!

Obs: clique na imagem para ampliar!

http://www.quino.com.ar/

Mafalda e Liberdade, por Quino.

Festivais Internacionais no Brasil

Depois de muitos dias sem postar… Voltei. Não preciso nem explicar, vocês sabem como é o final de ano! E resolvi publicar aqui um vídeo em que o Lobão – Me Chama, Me Chama – faz um comentário muito pertinente sobre os festivais aqui no Brasil. O conteúdo é autoexplicativo, então não vou ser redundante – mas que seria muito bom ver os artistas brasileiros se posicionando seria. Deem uma olhada e tirem as suas próprias conclusões.

 

Hoje é feriado e…

Eu acordei e fui trabalhar!

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